Crescer sem espelhos e representações negras no início da vida e a travessia afetiva em direção à liberdade de ser quem é

Antes de conseguir dizer que era lésbica, ela já percebia que algumas figuras femininas despertavam algo diferente. Cailane cresceu acompanhando divas pop, grupos femininos de k-pop e vídeos produzidos por criadoras no YouTube. Nessa época, já percebeu que algumas dessas referências lhe provocavam atração, sem saber nomear o que sentia, descobrindo, aos poucos, que aquele fascínio era, na verdade, o início de sua própria história.
A descoberta, porém, veio acompanhada de culpa. Durante a infância e a adolescência, compreender que desejava mulheres significava também lidar com a expectativa de que deveria desejar homens. Entre os 13 e 14 anos, ela notou que não sentia atração por eles. Aos 16, o entendimento se completou ao perceber que tampouco gostaria de construir relacionamentos afetivos e românticos ao lado deles.
Se reconhecer lésbica foi uma descoberta, encontrar alguém com quem pudesse se identificar era outra questão. Cailane não tinha referências lésbicas durante a infância e, por ser uma mulher negra, essa representação se tornava ainda mais distante. “Durante a minha infância, nunca tive uma referência exata de lésbicas na minha vida. Sempre era algo muito distante ter alguém com quem me identificar e poder dizer que era algo que eu queria ser, ainda mais por ser uma pessoa negra”, relata.
A cultura pop oferecia referências que ajudavam a diminuir esse distanciamento, porém não preenchiam completamente esse espaço. Ela seguia cantoras ligadas à comunidade LGBTQIA+ e encontrava nelas um espelho, ainda que incompleto. Embora houvesse figuras com as quais se sentisse representada, ainda faltava uma imagem concreta com a qual se identificar. “Sentia falta de uma referência negra, pois nem sempre me via totalmente nessas referências que eu tinha e sempre pensei que algo estava faltando nessas representações.”
Hoje, a relação com essas imagens é diferente. Artistas como Doechii e Chappell Roan se tornaram uma forma de se sentir mais vista, assim como a possibilidade de acompanhar Rosalía vivendo publicamente um relacionamento com outra mulher. Ver essas mulheres em situações cotidianas, falando sobre suas vidas ou simplesmente existindo, preenche o espaço que antes parecia distante.
Essas mudanças também atravessaram a forma como ela passou a se enxergar. A culpa por desejar mulheres deixou de ocupar o mesmo espaço e deu lugar à confiança e à autoestima. Se pudesse voltar no tempo e mostrar para a menininha que começou a perceber que sentia atração por mulheres, uma única obra, ela apresentaria Alike, personagem do filme Pariah, de Dee Rees. A personagem, jovem lésbica e negra, possui coragem e segurança para ser quem é, mesmo diante do preconceito daqueles que, por amor, deveriam protegê-la e apoiá-la. “Demonstra como, mesmo com o preconceito dos familiares, devemos sempre ter segurança do que somos e do que queremos ser.”
Hoje, a menina que precisou esconder e questionar aquilo que sentia consegue olhar para a própria história de outra forma. Resgatou a liberdade que sempre foi sua por direito, mesmo que a culpa e o medo de seguir seu coração falasse o contrário. “Finalmente conseguia viver sem achar que o que eu sentia era errado ou proibido, e com isso consegui me sentir mais livre e confiante.”