De "Em Família" a Chappell Roan, os espelhos que ajudaram uma jovem a compreender seu próprio afeto

O casal Loquinha, de Três Graças. Foto: O Globo.
Era 2014 e Ananda tinha apenas oito anos. Na televisão, Clara e Marina viviam uma história de amor na novela Em Família. Do outro lado da tela, ela ainda não sabia explicar por que aquelas duas mulheres despertavam nela uma sensação diferente. "Toda vez que aparecia uma cena delas, meu coração acelerava e eu não entendia bem." O significado daquele sentimento só se revelaria anos mais tarde.
Nascida no interior do Pará, Ananda, hoje com 20 anos, começou a compreender sua sexualidade durante a adolescência. Aos 14, o contato com as redes sociais ampliou seu repertório e apresentou outras possibilidades de existência até então desconhecidas. Ela percebeu que não havia problema em gostar de mulheres, mas o caminho para se entender e se nomear uma mulher lésbica levou mais tempo. Quando tinha 16 anos, entre relacionamentos com meninas e a tentativa de se relacionar com um menino, o conflito interno se intensificou. A pressão para gostar de garotos gerava um sentimento de obrigação e culpa. O alívio só veio quando conseguiu romper com essas expectativas. "Passei por um longo processo até me entender e aceitar como mulher lésbica." E o sentimento de culpa deu espaço para o de coragem e aceitação.
Com 16 anos, essa coragem se fez necessária para o próximo passo: contar às pessoas que amava quem realmente era. Ananda se sentia encorajada por já ter presenciado a aceitação de um casal de mulheres em sua casa. Apesar da coragem, o medo ainda a travava. "Durante alguns meses eu tentei falar, mas não conseguia verbalizar. As palavras simplesmente não saíam", lembra. Usando o ambiente digital como ponte, ela criou um grupo no WhatsApp com a mãe e as irmãs, batizado de "armário", saiu da conversa e foi realizar o Enem. Ao retornar para casa, conseguiu verbalizar seus sentimentos. O medo de meses se transformou no abraço da mãe e na resposta descontraída: "Mas quem gosta de mulher sou eu ou tu? Não ligo", confirmando a certeza de que, pelo menos dentro do próprio lar, ela estaria protegida.
A menininha de oito anos, que não entendia a sensação de ver duas mulheres se amando sendo representadas na televisão, dá lugar a uma mulher de 20 anos, atenta, onde quer se enxergar. Nas telas de casa, a novela recente Três Graças, em que as atrizes Alanis Guillen e Gabi Medvedovsky deram vida ao casal "Loquinha", marcou sua rotina. "Ver as duas na TV representando tão lindamente um casal lésbico me deixou bem feliz. Por alguns meses, parecia que nem existia homofobia nesse país", relata.
Na música, Lady Gaga, com "Born This Way", acompanhava seus dias. Ouvir a popstar, que dizia que não havia nada de errado em ser quem você é, deu-lhe coragem para viver experiências e uma referência que a segue até os dias atuais. Além de Gaga, Chappell Roan, cantora assumidamente lésbica que canta sobre desilusões e amores com mulheres, e Dua Lipa, aliada da causa LGBTQIA+, tornaram-se ponto de apoio.
Das divas pop ao horário nobre, a jovem do interior do Pará encontrou telas e redes que refletem sua coragem para ser ela mesma. Sejam reais ou virtuais, esses espelhos lhe possibilitaram compreender, apreciar e vivenciar o afeto em sua plenitude: "Acho o amor lésbico muito cuidadoso. Foi isso que pude observar de perto e, posteriormente, nas novelas, filmes e livros, é um amor diferente de tudo o que eu já vi."